PUBLICIDADE

Topo

Histórico

Pro-players x Burnout: cuidar da saúde mental é importante para quem joga

Leo Bianchi

31/05/2020 09h11

A importância do preparo psicológico em toda e qualquer modalidade esportiva tem sido exaltada cada vez mais nos últimos tempos. Nos eSports, a história não é diferente. A presença de profissionais do ramo é tratada como indispensável em organizações de ponta no cenário competitivo, e os exemplos de jogadores afetados por problemas que envolvem o equilíbrio mental sob pressão ligam um alerta que deveria ser óbvio: a saúde mental é tão importante quanto a física.

Os dinamarqueses Lukas Rossander e Andreas Højsleth, ambos de 24 anos, são grandes exemplos disso. Se você acompanha o cenário de eSports, mais especificamente o de Counter-Strike: Global Offensive, você os conhece como gla1ve e Xyp9x. O primeiro é um dos cinco jogadores que compõe o time considerado por diversos especialistas o maior da história no FPS da Valve. Há alguns dias, os dois anunciaram que ficarão parados por três meses para cuidar da própria saúde mental.

"Andreas Xyp9x precisa de uma pausa do competitivo. O timing não é o ideal, mas não podemos nos comprometer quando se trata de dar aos jogadores as melhores possibilidades de manter um equilíbrio mental balanceado para ter um desempenho a longo prazo, disse o diretor de eSports, Kasper Hvidt.

Ver essa foto no Instagram

 

Dont u understand that I just want to WIN, sometimes it can get you a little mad

Uma publicação compartilhada por Lukas 'gla1ve' Rossander (@gla1ve_csgo) em

"Por um longo tempo, eu tenho tido sintomas de estresse e burnout. Meus companheiros de time e a Astralis tentaram diversas formas de me ajudar a superar isso. Como continua acontecendo, meu médico e eu decidimos que preciso de uma pausa (…) Usarei os próximos três meses para descansar em tempo integral e, então, voltar ao time", pediu o jogador, solicitando o apoio dos fãs e justificando a necessidade da decisão.

Ainda no ambiente do CS:GO, outro exemplo recente: o sueco Olof Kajbjer Gustafsson, o olofmeister, experiente jogador de 28 anos e considerado o melhor do mundo pela HLTV em 2015, anunciou que faria uma pausa da carreira pela FaZe Clan por estar desmotivado. Mais uma prova clara que desmistifica o pensamento raso do tipo: "Oras, mas como ele não pode ser feliz fazendo o que ama e ganhando por isso?"

Para o psicólogo especialista em eSports, Claudio Godoi, o Burnout nos games tem se tornado cada vez mais comum. "Eu vejo o Burnout num funcionamento muito próximo daquela sensação de saturação. É como beber água: o primeiro copo é gostoso, depois toma dois, três, e daqui a pouco você não quer mais nem ver aquilo. E muitos Pro-Players tem muita expectativa e mergulha nesse funcionamento e a experiência acaba sendo frustrante quando o sujeito não conquista tudo que idealizou. Isso gera um sentimento de impotência, desesperança, perda de motivação e ideais", explica o psicólogo que trabalha atualmente na Team Liquid.

Por trás de cada profissional, há seres humanos que, como quaisquer outros, tem problemas, enfrentam conflitos e questionamentos diários. Parece óbvio, mas há muita resistência de parte do público em entender que o fato de eles viverem de eSports, jogando horas e horas por dia, não lhes tira diversos fardos como pressão psicológica, cobrança por resultados, entre tantos outros fatores que podem se transformar em ansiedade e distúrbios mais sérios.

O bicampeão mundial Lee "Wolf" Jae-wan decidiu se aposentar do LoL. A carreira de sete anos lhe rendeu depressão, transtorno de ansiedade e síndrome do pânico

O sul-coreano Lee "Wolf", suporte da lendária SK Telecom e bicampeão mundial de League of Legends em 2015 e 2016, chegou a relatar que vomitava após as partidas por conta de transtornos mentais. Em entrevista ao portal Inven Global, ao anunciar sua aposentadoria em novembro do ano passado, ele disse ter problemas com ansiedade e síndrome do pânico. Nunca transpareceu em entrevistas ou se abriu sobre isso, mas sofreu, e muito, nos bastidores.

O psicólogo da Team Liquid alerta que nessa carreira é preciso ter equilíbrio. "Quando você tem uma organização dos seus objetivos a longo prazo, você consegue permanecer nesse funcionamento competitivo durante mais tempo. Treinar 16 horas não significa que você vai vencer o campeonato. Dormir e comer bem faz seu corpo processar o aprendizado do treino. E o acompanhamento psicológico ajuda nessa rotina", sugere Claudio Godoi.

E relata também que definir pequenos objetivos em vez de grandes conquistas aliviam a cobrança individual. "Burnout está ligado à expectativa que você tem. Pequenos pontos de evolução – como ter uma comunicação melhor, encontrar novos pixeis – devem servir de motivação, porque o melhorar não está ligado ao quanto você ganha em si, mas o quanto você consegue seguir nesse caminho melhorando. Pensar em subir seu rank ou vencer campeonatos aumenta a chances de ter burnout por conta dos objetivos serem muito maiores".

O alerta não é só para organizações, jogadores e todos os envolvidos no ecossistema dos eSports enquanto negócio, mas também para os fãs. Críticas são inerentes a qualquer tipo de disputa esportiva em alto nível, mas nada justifica ofensas e xingamentos. Vivendo ou não dos games, jogadores têm obstáculos a serem superados e problemas a serem resolvidos. Todos merecem respeito e precisam saber: se a mente não está em dia, dificilmente o resto funcionará.

Sobre o Autor

Leo Bianchi é jornalista, já foi repórter e apresentador do Globo Esporte. É apaixonado por competição e já cobriu Copa do Mundo, Fórmula 1, UFC e mundiais de CSGO, R6, FIFA, Just Dance e Free Fire. Também é youtuber e Pro Player frustrado.

Sobre o Blog

No GGWP você encontra análise dos cenários competitivos no Brasil e no mundo, além dos bastidores do universo envolvendo times, pro-players e novidades em geral.